Ficha técnica (BOM) na prática: o que precisa ter para o custo fechar
A ficha técnica é o documento mais barato de fazer e o que mais rende: dele saem o custo, a necessidade de compra, a reserva de estoque e o preço de venda. E é também o mais subestimado: na maioria das empresas que começam a implantar um ERP, o que existe é uma lista de componentes sem quantidade, herdada de um cadastro antigo.
Os quatro campos obrigatórios
- Componente. O item do estoque, não uma descrição livre. "Tecido" não serve; "MP-TEC-001: algodão cru 160 g/m²" serve.
- Quantidade por unidade do produto. O erro mais comum é lançar a quantidade do lote de produção. Se a ficha diz 500 e alguém produzir 100 peças, o consumo calculado será 50.000.
- Unidade coerente com o estoque. Se o tecido é comprado e estocado em quilos, a ficha precisa estar em quilos. Ficha em metros com estoque em quilos exige uma conversão que alguém vai esquecer de manter.
- Perda de processo. O acréscimo entre o que fica no produto e o que sai do almoxarifado, declarado sobre o consumo líquido.
A perda é o campo que decide o custo
Corte de tecido gera retalho. Extrusão gera refugo de partida. Serigrafia perde tinta na tela. Se a ficha declara o consumo líquido, o estoque some mais rápido do que o previsto e o custo sai baixo, sempre na direção que engana.
Com 120 g de tecido por sacola e 5% de perda, o consumo real é 126 g. Numa ordem de 5.000 peças, são 30 kg de diferença. É o suficiente para faltar material no meio da produção e para o custo unitário estar 5% otimista, que depois entra na formação do preço.
A perda não precisa ser exata no começo. Precisa existir, ainda que estimada, e ser corrigida quando o consumo real das primeiras ordens apontar a diferença.
Versão, não edição
Ficha técnica muda: troca de fornecedor, ajuste de gramatura, mudança de processo. Editar a ficha existente destrói a memória do custo: as ordens antigas passam a referenciar uma composição que não era a delas, e a comparação entre custo padrão e real de meses anteriores perde o sentido.
O comportamento correto é versionar: a ficha nova nasce como versão seguinte, a anterior continua ligada às ordens que a usaram, e o histórico permanece comparável.
Níveis: quando o componente também é fabricado
Se uma etapa gera um item intermediário que é estocado (uma bobina impressa, uma peça cortada), ele merece código e ficha própria. Assim o custo de cada nível fica visível e é possível saber onde o custo cresce.
Se o intermediário nunca é estocado nem vendido, criar nível só adiciona burocracia. A pergunta prática é: esse item existe parado em algum lugar da fábrica? Se existe, merece cadastro.
Duas variações da mesma ideia têm regras próprias: a receita em porcentagem das indústrias de processo, em que o custo depende do rendimento da batelada, e a confecção, em que o consumo de tecido muda conforme a grade de tamanho.
O que levar disso
- Quantidade é sempre por unidade do produto, nunca por lote.
- Perda declarada, mesmo estimada, vale mais que perda ignorada.
- Ficha se versiona; editar a existente apaga a história do custo.
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