Custo padrão x custo real: separar o que foi preço do que foi desperdício
A ordem fechou R$ 1.610,00 acima do previsto. A reunião que vem depois costuma ter duas versões da mesma história: compras diz que a produção desperdiçou, a produção diz que a matéria-prima veio mais cara. Quase sempre as duas têm um pouco de razão, e dá para dizer exatamente quanto.
O padrão e o real
O custo padrão é o que a ordem deveria custar: a quantidade da ficha técnica vezes o preço de referência. O custo real é o que ela custou: o que foi consumido de fato, ao preço que foi pago. Numa ordem de 1.000 peças:
| Quantidade | Preço | Custo | |
|---|---|---|---|
| Padrão | 500 kg (0,50 kg por peça) | R$ 20,00/kg | R$ 10.000,00 |
| Real | 540 kg | R$ 21,50/kg | R$ 11.610,00 |
A diferença em duas partes
variação de quantidade = (quantidade real − padrão) × preço padrão
(540 − 500) × R$ 20,00 = R$ 800,00. É o que a produção consumiu além da ficha, avaliado ao preço de referência para que o aumento de preço não se misture.
variação de preço = (preço real − padrão) × quantidade real
(R$ 21,50 − R$ 20,00) × 540 = R$ 810,00. É o que se pagou a mais pelo material efetivamente usado.
As duas somam os R$ 1.610,00, e a reunião muda de tom: metade da diferença é consumo, metade é preço. A primeira é conversa com a produção e com a ficha técnica; a segunda, com compras e com o repasse de preço.
O mesmo raciocínio na mão de obra
O padrão prevê 0,02 hora por peça, 20 horas para a ordem, a um custo-hora de R$ 60,00: R$ 1.200,00. O apontamento registrou 23 horas, e o custo-hora real foi de R$ 62,00: R$ 1.426,00.
- Eficiência: (23 − 20) × R$ 60,00 = R$ 180,00. Horas a mais do que o padrão previa.
- Taxa: (R$ 62,00 − R$ 60,00) × 23 = R$ 46,00. A hora ficou mais cara: hora extra, dissídio, uma pessoa mais experiente alocada.
R$ 180,00 + R$ 46,00 = R$ 226,00, exatamente a diferença. De novo, duas causas com dois responsáveis diferentes.
Dois cuidados que decidem se a análise vale alguma coisa
Compare pelo que foi produzido, não pelo que foi planejado. Se a ordem de 1.000 peças entregou 950, o padrão de comparação é o de 950: 475 kg e R$ 9.500,00. Comparar com o planejado de 1.000 esconde o consumo excessivo, porque a peça que não foi feita "economiza" material no papel.
Congele o padrão quando a ordem nasce. Se o custo padrão for recalculado com o preço de hoje, a variação de preço simplesmente desaparece, e junto com ela a informação de que a matéria-prima subiu durante a ordem. O padrão é uma fotografia do momento em que a ordem foi aberta.
O que olhar primeiro
Variação isolada é evento: um lote de matéria-prima ruim, uma máquina que parou. Variação que se repete no mesmo item, ordem após ordem, quase nunca é a produção trabalhando mal: é a ficha técnica errada. Se toda ordem de um produto consome 8% a mais, a ficha técnica está otimista, e o preço calculado em cima dela também. Corrigir a ficha vale mais do que cobrar a produção.
O que levar disso
- Material: variação de quantidade (produção) e de preço (compras), sempre separadas.
- Mão de obra: eficiência (horas a mais) e taxa (hora mais cara).
- Compare com o padrão do volume produzido, congelado quando a ordem nasceu.
- Variação recorrente no mesmo item aponta para a ficha técnica, não para a produção.
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